quarta-feira, 8 de julho de 2009
O jogo que queremos jogar
Dois jovens caminham pelas ruas de Nairóbi com uma caixa de papelão reciclado colorida em mãos, entram em uma escola aonde dezenas de outros jovens os aguardam. A caixa é aberta revelando dezenas de pequenas peças coloridas, cartas e um tabuleiro de um visual fascinante. Encantados e curiosos, os jovens aguardam as instruções dos guardiões daquele artefato, já iniciados naquela experiência. Eles irão jogar uma partida de um jogo que fala sobre prevenção da Aids, vivenciarão nele um desafio com descobertas incríveis, reflexões às vezes dolorosas, farão laços de amizade e companheirismo e certamente não serão as mesmas pessoas ao final daquela partida. Em Estocolmo, uma garota conectada na rede entra em contato com jovens de Quebec, da Cidade do Cabo, de Istambul e de Recife. Estão jogando como parceiros um simulador cujo o objetivo é criar uma cidade ideal.
Um jogo de cartas sobre prevenção de acidentes é jogado por operários em um estaleiro em Seul e nos escritórios de uma fundação em Genebra, um jogo personalizado faz parte da estratégia de captação de recursos de um grande projeto humanitário.
Todos estas cenas hipotéticas são possibilidades reais (algumas cenas similares a estas certamente estão ocorrendo por ai) que tendem cada mais fazer parte das campanhas de organizações ao redor do globo. Este otimismo todo está caucado na percepção de processos em andamento e de pequenos sinais que já se mostram por ai e que vale a pena nos atentarmos.
Ao se falar de jogos hoje em dia, basicamente nos remeteremos ao boom do mercado de jogos eletrônicos que hoje representam uma parcela importantíssima do mercado de entretenimento; por outro lado, lembraremos dos polêmicos debates em torno do realismo imersivo destas ferramentas fomentando alienação e violência, assuntos nada divertidos. Não podemos nos furtar a estes debates mas neste artigo me atenho à perspectiva do jogo como ferramenta de desenvolvimento pessoal, organizacional e comunitário em curso ou que potencialmente ainda pode se manifestar no futuro.
Se olharmos nas origens dos jogos veremos que eles são derivados de rituais primitivos que em face a ocupação do ambiente, ganharam representações em tabuleiros e pecinhas. Antes de ser mero entretenimento, jogos foram criados com o propósito religioso e de formação social por povos diversos como os mesopotâmios, os egípcios, africanos, gregos, esquimós.
Jogos têm em seu DNA uma vocação multicultural de desenvolvimento humano (o legado pré moderno) que integrados ao fascínio das regras elaboradas e dos desafios de conquistas (o legado da modernidade) e incorporados aos valores globocêntricos de objetivos humanitários, de bem comum, de respeito à diversidade, integração dos povos e ecologia (o legado pós-moderno), apontam para uma expressão pós-pós-moderna (por falta de termo melhor!) que se diferencia justamente por fazer esta integração transformadora.
Alguns sinais dão força a esta imagem: em abril de 2009 o Estadão publicou uma reportagem especial no caderno de sustentabilidade, sobre jogos voltado para questões de sustentabilidade. Nela vemos desde adaptações conceitualmente acanhadas (Banco Imobiliário Sustentável) até ao elaborado jogo do Negócio Sustentável de Glória Pereira, que irá integrar a grade acadêmica da faculdade de Economia da USP! Nesta reportagem há uma série de links de outras iniciativas, na maioria jogos eletrônicos online como o Food Force, programa Alimentar Mundial da ONU e o Honoloko da Agência Europeia de Ambiente. No mundo dos videogames ainda há de ressaltar a presença da Games for Changes, um entidade bastante ativa que promove e divulga jogos eletrônicos que tenham propostas de mudanças sociais.
Se os videogames representam hoje o mainstream com maior visibilidade, os jogos sociais de tabuleiro e cartas ressurgem com força dentro desta nova atribuição dos jogos, não apenas por uma nostalgia passageira e sim porquê possuem características intrínsecas que não podem ser substituídas pela tecnologia eletrônica: o relacionamento direto compartilhado, o contato físico, o sentido lúdico de manipulação táctil de diversos elementos; todas estas características do tipo High Touch (termo do futurista John Naisbitt para falar daquilo que o High Tech não pode substituir). Sem contar que ainda há muitos lugares cujo o acesso tecnológico é limitado e cujo desenvolvimento pessoal e organizacional são prioridades humanitárias. Os jogos à moda antiga cabem como uma luva sobretudo nestes casos.
Tudo isto sem levar em conta o fato de que as pessoas estão cada vez mais aptas ao entendimento e relacionamento contextual típico daqueles oferecidos pelos jogos. Eles são motivadores de desenvolvimento, sobretudo nas gerações mais jovens, porquê são maleáveis, abertos a improvisos e variações e oferecem ao seus participantes reflexões sobre os conjuntos de regras e valores contidos naquela experiência.
Este hoje otimismo mal disfarçado tende a se tornar uma realidade pouco a pouco e, ai então, quando falarmos de jogos, todo mundo saberá que o assunto é sério e ao mesmo tempo muito divertido.
Publicado originalmente no site da Associação Brasileira de Captadores de Recursos e na ESPM Digital
sábado, 14 de março de 2009
Poema Impostor
com a mão espalmada no vidro
a voz estufada na janela
mas não chegando a seu ouvido
De uma dor outrora renitente
Dura, perversa, devassa canção
que me pusera em movimento
(além da minha força)
Volto-me agora revigorado
Sem sinal de dor senão
a mão novamente no vidro
e deixar um legado invisível
tão vazio de memória
tão ausente de pós
E ainda assim imenso
pudera dizer eu
Hoje não preciso abrir a janela
atar nós, imprudente
No limite, a identidade devorada
Tornando-me janela, mão, voz, você
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Modeladora de barro
Hoje não consigo e me angustio. Não que meu gosto pela cerâmica tenha esmorecido. Não que tenha me tornado indolente e preguiçosa com as prendas. É preciso que eu termine alguma peça logo, antes que papai vire-se para cá e perceba meu atraso.
A fortuna é que ele está agora muito ocupado conversando com um dos conselheiros do governador. Eles às vezes confabulam em sussurros, ora se exaltam aos berros e golpes na mesa. Se a preocupação de meu pai é a minha sorte, ela também é o motivo da minha distração com meu trabalho.
Eu sei que não posso deixar isso acontecer mas fraquejo e não consigo evitar. Se mamãe souber que eu tenho me preocupado com os assuntos dos homens ficará também preocupada; se papai ou meus irmãos souberem, eu serei castigada.
Sofro então em silêncio buscando forças para me distrair da sombra que recai sobre o nosso povo. O governador está fraco e ninguém parece perceber. Nosso mercado enfraquece a cada dia com a diminuição das caravanas; as terras não dão tantos frutos como antes e os animais estão fracos. Os homens importantes das leis, do governo e das famílias visitam sempre meu pai, e eu escuto suas reclamações, seus desabafos e a raiva do desentendimento paira sobre todos; por isso eu sei que a vontade do governador não encontra mais esperança e lealdade.
Não sai da minha mente o devaneio de uma tenda velha, cujas hastes enfraquecem, cedendo na areia fofa e esperando o primeiro vento do inverno para despencar arruinada. Os homens importantes parecem não ver esse conjunto de coisas acontecendo de uma forma tão combinada, anunciando o pior. Não sei se sou uma tola por achar isso.
Mergulho a ponta dos meus dedos na água e procuro novamente fazer meu trabalho. Começo novamente a remodelar a argila da minha última tentativa desastrada.
Se o governo de um povo fosse assim como dar forma ao barro, poderíamos nós remodelar as partes defeituosas? Amassar aquilo que não está funcionando e com afinco e delicadeza fazer do toque a forma perfeita? Se o barro já estiver endurecido poderíamos jogá-lo ao chão em pedaços, moê-lo e começar tudo de novo?
Olho para meus dedos e vejo povos e clãs trabalhando em conjunto, ordenados pela mão singela e amorosa, enquanto os olhos atentos buscam qualquer sinal de desarmonia na superfície. Acaricio o vaso com compreensão e cuidado de uma mãe e coloco-o para secar, orgulhosa mais uma vez por dar vida à beleza e à utilidade.
Em minha cabeça um último devaneio secretamente me atiça: poderia uma artesã governar a todos?
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
O Menino do Sol Poente (última parte)
(...)
Márcio, curioso, acompanhava os movimentos precisos e cheios de reverência da moça que subitamente agachou. Momentaneamente, o jovem desconcentrou-se da outra sala por uma série de ruídos agudos feitos pelas porcelanas na mesinha, pensando ser um pequeno desastre promovido por seu tio. Ao olhar, contudo, seu tio estava imóvel com os olhos fechados e distante dos objetos. Ao retomar a atenção na moça, Márcio testemunhou uma estranha sombra que parecia se formar do nada, tomando a grandiosa forma de um homem paramentado com trajes de samurais. Uma voz grave falou em japonês com a menina.
Não demorou para que ela voltasse para a ante-sala, conversando gentilmente em japonês com o Sr. Kenishi, que levantou-se entrando na sala aonde se encontrava a misteriosa sombra.
-“Olá, você não quer um pouco de chá?” – disse com uma voz doce a menina, sentando-se delicadamente ao lado de Márcio.
-“Um pouco” – respondeu Márcio – “Você é brasileira?”.
-“Sim, prazer, meu nome é Isabel” – disse divertindo-se com a pergunta, ao mesmo tempo em que derramava o chá do jarro no copo.
Ao ver aquele sorriso tão perto de si, o rapaz reparou finalmente que Isabel era uma adolescente belíssima. – “Eu sou o Márcio, o Sr. Kenishi é meu tio-avô” – puxou conversa – “Quem meu tio veio visitar?”.
A moça, que já se levantara, divertiu-se ainda mais com a desorientação do rapaz, sussurrou levando a mão à boca, fingindo assim contar um segredo – “Hihi! Dizem que ele é Ojin Tenno, filho de Jingo!”- e virou-se para abrir uma outra porta de correr, desvelando uma prateleira cheia de objetos.
Márcio perguntou espantado – “Você também não sabe quem ele é?!” – recebendo a curta resposta da moça com seu ar cativante – “Sei sim! Hihi” – para mudar de assunto repentinamente –“Mas agora vamos cuidar do seu cotovelo”.
Isabel abriu um pote de porcelana, soltando no ar um forte cheiro de ervas. Passou três dedos delicadamente num ungüento levemente esverdeado, levando-os ao cotovelo do rapaz.
O rapaz contraiu o corpo, mas a pasta não doía ou ardia. O que ardia era seu peito por um sentimento indefinível que lhe arrebatara, resultado da atenção terna de uma estranha garota, tão acolhedora, tão cuidadosa.
Minutos depois Márcio foi convidado a entrar na sala. Não sabia o que estava acontecendo ali, percebeu de alguma forma que sua presença ali não era ao acaso. Pôde ver finalmente o anfitrião da noite. Um homem muito forte e largo, de idade indefinível estava em pé. Estranhou que ele não usava uma roupa de samurai como sua silhueta indicara, vestia uma roupa tradicional, mas informal. Márcio respondeu a saudação tradicional curvando-se diante do homem.
Embora não fosse velho, sentia na presença daquele homem, algo de muito antigo. Além disso, era certo que este homem fora guerreiro em sua vida e inspirava um respeito que se confundia com o temor de estar diante de um samurai implacável.
Chamava atenção também a enorme quantidade de pombos que se afilavam junto a janela, atrás do homem. Havia uma conexão oculta entre estes dois senhores e os estranhos acontecimentos dos últimos dias.
Depois de um instante de silêncio, o Sr. Kenishi falou brevemente com Márcio, tentando explicá-lo algo. Apresentou o homem como Yawata e disse que os dois eram velhos amigos e há muito tempo que participaram de lendárias aventuras em solo nipônico. O que falava parecia referir-se a tempos muito antigos e míticos, algo incompatível com aqueles senhores, mesmo levando-se em conta a idade avançada. Contudo, uma verdade transbordava daquela boca e da presença daqueles homens de modo que Márcio não questionava a veracidade do que era dito.
Depois foi a vez de Yawata falar referindo-se ao seu tio-avô como Fujin, que para Márcio soou como uma espécie de apelido. Yawata falou num tom reverente da importância da presença de Márcio ali. Depois, abriu uma caixa antiga e retirou uma espécie de cotoveleira de couro chamada Homuda. Era um presente para Márcio não se esquecer daquele momento.
Márcio não sabia como agir, não sabia se aqueles homens esperavam alguma ação, alguma pergunta ou qualquer coisa por parte dele. Isabel, ao seu lado, o tranqüilizou dizendo que ele não precisava se preocupar, apenas tinha que ser “verdadeiro” e que tudo correria bem.
Finalmente, todos desceram as escadas em direção à rua. Márcio se surpreendera mais uma vez ao perceber que o sol começava a nascer, não podia crer que o tempo passara tão rápido.
Então, Sr. Kenishi se despediu de Márcio, disse que precisava partir juntamente com Yawata. Antecipando a preocupação do rapaz, anunciou que seu pai receberia em alguns dias uma carta de algum parente, dando notícias dele. Os dois então seguiram caminhando rua acima, em direção ao sol que nascia, sumindo na claridade.
Márcio percebera que sentiria saudades daquele homem.
-“Volte um dia para me visitar” – disse Isabel dando um beijo na face do garoto.
Com um sorriso e um leve movimento, Márcio concordou e saiu andando no sentido oposto aos velhos.
Percebeu que pela primeira vez estava sozinho. Pela primeira vez caminhava por aquela cidade. Cidade que era sua e que ele conhecia tão pouco. E também soube que este era o primeiro de muitos passeios.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
O Menino do Sol Poente (parte IV)
O coração de Márcio quase saíra pela boca com o novo imprevisto, estava descobrindo da forma mais difícil que o velho era dado a bruscas variações de comportamento. O táxi andava enquanto o velho tentava se comunicar com o taxista esticando um papel de embrulho com anotações para que o motorista pudesse ver.
Márcio finalmente reagiu em semi-desespero -“Aonde você quer ir Sr. Kenishi?! Tá de noite! Não vai encontrar nada aberto!”- e depois insistiu suplicando sem sucesso - “Vamos voltar! Meu pai vai ficar louco da vida! Tá tarde”. O taxista manteve-se em silêncio torcendo para que a corrida prosseguisse.
Márcio tentou ligar para o celular do pai mas não havia sinal. Então, resignou-se em saber ao menos qual seria o destino daquela aventura. Bairro da Liberdade, zona central de São Paulo. Ele sabia que era a região aonde a colônia japonesa se concentrava, mas nunca estivera lá. Muito menos a noite e saber que se aproximavam do temido Centrão num sábado a noite, só piorava as coisas.
A cada minuto no táxi a paisagem ia se tornando mais desconhecida. O táxi saiu da região oeste de São Paulo pela Avenida Francisco Matarazzo desembocando na Avenida São João.
Com um aperto na boca do estômago, Márcio via uma cidade noturna, com pessoas suspeitas caminhando, outras pessoas mais suspeitas ainda paradas nas esquinas, nos faróis. Luzes de néon, mendigos, botecos, igrejas evangélicas. De repente a visão do Minhocão. Márcio já passara de carro por cima daquele viaduto estranho, mas por baixo dele, com suas sombras projetadas em recantos ameaçadores era muito diferente. O garoto estremecia sabendo que seu companheiro de aventura sabia ainda menos daquele lugar, no entanto, ao fitar o perfil plácido do velho refletindo as luzes de néon e de mercúrio admirava-se em ver a coragem (ou loucura?) de um ente que já vira muitos sóis e luas antes dele. Aquele ancião, de súbito, tocou o coração do menino apavorado. Certamente era inspirador vê-lo em sua aparente fragilidade física mas no alto de uma impávida nobreza, atravessando a noite de um ambiente desconhecido como um explorador em uma longa viagem através do oceano em direção do sol poente. Márcio pela primeira vez não viu um velho frágil ao seu lado e sim toda uma vida de experiências, de provações, de conquistas e de desafios enfrentados.
O táxi cruzou o viaduto sobre a Avenida Vinte e Três de Maio, entrando a seguir na Avenida Liberdade e finalmente fazer zigue-zagues entrecortando ruas no coração do bairro oriental de São Paulo. Márcio ficou perplexo em ver como a maioria das fachadas naquele pedaço da cidade eram escritas em japonês ou chinês. Postes típicos do oriente também adornavam a região.
A rua parecia deserta. Pararam em frente a um restaurante japonês aparentemente fechado. Ao lado, uma estreita porta envidraçada exibia uma iluminação indireta amarelada. Sr. Kenishi deu uma pequena bolsa com dinheiro brasileiro para Márcio, sinalizando para que ele efetuasse o pagamento da viagem. Desceram do táxi, Sr. Kenishi bateu na porta estreita.
A porta abriu devagar e junto a ela, uma adolescente mestiça trajava um belo kimono, saudou com a cabeça os visitantes. Eles subiram por uma estreita escadaria até uma ante-sala pequena, cercada por anteparos translúcidos tipicamente japoneses que separavam o ambiente de três outras salas. A jovem pediu delicadamente que os dois sentassem no chão, junto a uma mesa baixa aonde se apoiava um jarro e copos de porcelana. A garota abriu uma porta de correr no anteparo, indo para o outro ambiente aonde era possível observar sua tênue silhueta pela parede translúcida.
(...)
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O Menino do Sol Poente (parte III)
A voz rouca e sinistra do outro lado da linha ajudou para que Márcio acordasse em definitivo e, assustado, prestou atenção no telefonema tentando extrair qualquer informação alarmante, na tentativa de impedir que o temível inesperado “desse as caras” neste fim de semana.
A situação só tornava-se mais incomoda. O Sr. Kenishi conversava ruidosamente com alguém, às vezes sorria e parecia brincar intimamente com seu interlocutor, outras horas, o tom era sério e ele sisudo parecia passar ou receber instruções. Em certo momento, o Sr. Kenishi soltou o telefone, assinalou com a mão espalmada para Márcio esperar ali e dirigiu-se o mais apressadamente que seu estado permitia para o quarto. Márcio, sem entender se o telefonema terminara, pegou o fone ouvindo ruídos de alguém que se mantinha do outro lado da linha, parecia que várias pessoas estavam lá, conversando paralelamente enquanto o velho não voltava à conversa. Márcio largou o telefone ao ouvir a volta do idoso, que vinha carregando a misteriosa bolsa.
Kenishi pegara novamente o fone, tirando da bolsa um pedaço de papel velho, com coisas escritas em japonês. O velho aparentemente lia o papel em voz alta, parando para respirar e ouvir algo entre as frases. Márcio ficava cada minuto mais preocupado.
Finalmente o velho desligou o telefone e seguiu silenciosamente para o quarto.
Márcio esperava que nenhum outro imprevisto ocorresse até a chegada dos pais.
O dia passou tranqüilo e ele voltou a relaxar. No final da tarde, no entanto, Sr. Kenishi surgiu arrumado com uma vestimenta japonesa “estravagante” , sua bengala e a bolsa. Esta situação, embora indesejável, não era tão inesperada como o telefonema da manhã. Seu pai lhe instruíra para levar seu tio passear ao final da tarde se assim ele desejasse. Márcio resignado calçou o tênis, e ajudou o velho homem a descer pelo elevador do prédio.
O passeio estava programado para englobar dois quarteirões até a pracinha mais próxima da casa, sentar um pouco num banco, tomar o solzinho amarelado e morno do crepúsculo e depois fazer o caminho de volta. O percurso até a praça foi lento, consumindo preciosos 15 minutos do poente. Ao chegar a praça, o velho sentou-se durante um tempo para depois largar a bengala e a bolsa no colo do jovem e levantar-se iniciando lentos movimentos em direção ao sol, como uma dança, dobrando e esticando os braços lentamente, com movimentos parecidos com de um arqueiro. Márcio não sabia se aquilo era um sinal de senilidade ou uma espécie de dança tradicional japonesa, de qualquer maneira era motivo para um grande embaraço. Ele torcia para que ninguém conhecido aparecesse por perto.
Com o passar dos minutos, Márcio começou a prestar mais atenção naqueles movimentos e de repente ficou absorto por aquilo. A lentidão e a precisão dos movimentos, a silhueta daquele senhor contra o sol avermelhado, as abas longas daquele traje típico a balançar ao vento, tudo isto soava tão irreal e ao mesmo tempo familiar para o garoto, em certos momentos, ele quase que conseguia ver um grande arco feito de bambu e couro nas mãos do velho e sentia como se o vento mudasse de direção seguindo a mira do arco invisível, sendo disparado em velocidade assim que as mãos secas se abriam soltando a flecha fantasmagórica.
O garoto percebeu depois de um tempo a presença de duas belas moças sorrindo ao seu lado, assistindo ao espetáculo promovido pelo ancião. Ouviu seus comentários lisonjeiros a respeito do velho. “- Seu avô é uma gracinha! Quanto anos ele tem?”, disse a bela morena assim que Márcio voltou-se para ela. “-Ele é meu tio. Não sei quantos anos tem, ele veio do Japão”. Foi tudo o que ele disse para encurtar a história.
O sol se pôs e a noite chegou, mas eles continuaram ali, iluminados agora pelos postes de sódio do parque. Algumas pessoas se aproximavam e ficavam admirando os elegantes movimentos do velho. Àquela altura Márcio estava relaxado e bastante confortável com a situação, nem mesmo a noite tornou-se motivo de apreensão.
Quando o velho terminou já se passava das nove horas da noite e não havia mais platéia. O velho pegou a bengala e a bolsa. Márcio ofereceu seu braço de apoio e iniciaram o caminho de volta lentamente.
O ar estava parado e a noite quente. Márcio estava curioso para entender o que o velho estava fazendo realmente, mas achava melhor não perguntar, afinal, o senhor poderia ficar zangado se soubesse que o jovem não sabia nada da tradição de seus ancestrais.
De repente, num movimento ágil, o velho parou um táxi que passava ao lado e foi até a porta de passageiros. Márcio não teve muito tempo de reação, ficando um instante sem entender o que acontecia. Ameaçou gritar para o velho parar, ameaçou pegar o celular no bolso, e quando se deu conta, o idoso já estava dentro do táxi, olhando através da porta aberta para Márcio, o chamando com os olhos. Ele entrou no táxi que partiu rapidamente.
(...)
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
O Menino do Sol Poente (parte II)
Márcio ajudou o velho a se sentar. Depois ficou parado sem saber o que fazer diante daquela figura estranha e sorridente. Seus os olhos penetrantes e misteriosos fitavam fixamente nos olhos do jovem. Márcio desviava o olhar, fazendo uma varredura sem sentido pela sala, pelos os móveis, pela a janela, logo voltava a olhar seu tio-avô e percebia que os olhos do velho ainda o encaravam. Tudo que o jovem queria era sumir, aquela situação era demais incômoda. Estava impaciente, indeciso e seu corpo denunciava seu mal estar através de movimentos rápidos, curtos e inúteis.
-“Vem... otoko-no-ko”. Márcio atendeu o pedido do velho aproximando-se da poltrona. Com as mãos trêmulas Kenishi segurou no braço e ante-braço de Márcio, virando de tal modo que pudesse ver o ferimento do cotovelo de perto. Márcio assistiu sem entender aquela atitude do velho homem que olhava sério e pensativo para o machucado enquanto balbuciava sons que provavelmente eram frases em japonês. Ao terminar o cuidadoso exame visual, o velho ergueu os olhos, sorriu, falou algo em japonês, concluindo exibindo os poucos dentes amarelados com uma sonora e estridente gargalhada. Aquilo começara a irritar Márcio.
Logo a vida de Márcio voltou parcialmente ao normal. Com a chegada de sua irmã, da empregada, a mãe, o pai e para ajudar na sensação de normalidade, a ausência do Sr. Kenishi que dormia no quarto que antes pertencera ao garoto.
Seu pai contou que o velho não teria com quem ficar até averiguar quem dos parentes distantes poderia cuidar do velho. Afinal, para comodidade da família, São Paulo não é cidade para um velho e praticamente senil japonês. Neste período Márcio teve que, a contragosto, se mudar para o quarto da irmã, o que causou um certo alvoroço sobre a supremacia da TV do quarto... ele queria jogar video-game e ela assistir a programação infanto-juvenil da tarde. Eles se entenderam com a intervenção paterna, que pendeu para o garoto, entendendo que ele era o maior prejudicado com a presença do velho visitante.
Depois de três dias as coisas pareciam mais acomodadas na casa. A família conseguiu se acostumar com a nova configuração da rotina do lar, o que deixou Rui, o pai de Márcio, tranquilizado para organizar uma segunda viagem ao sítio no final de semana, para cuidar da burocracia e dos bens que estava herdando. Desta vez, iria também a esposa Shirley, Mirella e Carminha.
Márcio ficou com a incumbência de cuidar do idoso nestes dias. Fato que o deixou preocupado e ao mesmo tempo orgulhoso, pois indicava que finalmente iria ficar sem a família, um sinal de que seu pai confiara em seu amadurecimento. O fato é que seu pai não pensava da mesma forma. Deixou duas folhas cheias de instruções, grifando em letras garrafais o seu número de celular e o da mãe, para QUALQUER PROBLEMA LIGAR. Rui também avisou os vizinhos mais chegados do prédio e alguns conhecidos, para intervir em qualquer imprevisto.
A família partiu sexta-feira no final da tarde. Márcio estava contando que seu tio-avô continuasse em seu estado de retiro, permanecendo a maior parte do tempo dormindo ou fazendo sei lá o quê. De fato, algumas coisas eram muito estranhas naquele velho. Às vezes ouvia-se ruídos ao se passar pela porta do quarto, como se o velho estivesse com alguém. Estranho também era uma bolsa muito velha, e que aparentemente estava vazia, mas o velho parecia vigilante a menor aproximação de alguém para aquele artefato que parecia ter saído de um museu ou de um filme de samurai. O mais estranho e incômodo era a descomunal quantidade de pombos que se acumulavam nas janelas do apartamento desde que o velho chegara, todos desconfiavam que ele costumava alimentá-los, mas nunca pegaram-no em flagrante.
Ocorreu tudo muito bem na noite de sexta. Márcio aproveitou para levar seu vídeo-game para sala e jogar até a madrugada sem interrupções. Conseguira bater alguns recordes o que enchera de orgulho. Para comer, colocou o conteúdo do embrulho indicado no microondas e seguiu rigorosamente as instruções deixadas por Carminha, acostumada a fazer isto inclusive para a patroa que definitivamente, não tinha o perfil de “dama do lar”.
Sábado começou muito mal para Márcio. Depois dos exageros cometidos na noite anterior, teve que acordar logo cedo com uma bengala cutucando seu ombro. Acordou assustado e zonzo. O idoso finalmente decidiu infernizá-lo, falando em japonês, rápido coisas que nem se fossem ditas em bom português seriam assimiladas por aquele corpo sonolento. Apontava nervosamente para um papel amarelado com números, para depois apontar para a sala de visita. Márcio se levantou, arrastou-se até o telefone e discou o número, não saberia o que dizer para quem atendesse, mas preferiu não perguntar ao velho. Do outro lado da linha, uma voz estrondosa e rouca falou em japonês. Márcio congelou por dentro, dando imediatamente o telefone para seu tio-avô. Aquilo começara a ficar estranho demais e o jovem esperava que o velho voltasse para seu comportamento recluso e passivo, afinal, não ficou com esta simples missão esperando que o inesperado ocorresse.
(...)